QUARTA, 03/06/2026, 10:05

Exclusivo: desestatização da Sercomtel teria recebido recursos do Banco Master

Fundo Bordeaux, que teria fraudado aporte de 130 milhões de reais para comprar a telefonia, tinha como responsável na época o empresário Nelson Tanure, apontado como "sócio oculto" do banqueiro Daniel Vorcaro. Apuração da CBN encontrou documentos que comprovam envolvimento da telefonia com o banco mesmo após a venda

A desestatização da Sercomtel vai completar seis anos em agosto, mas o negócio voltou aos holofotes nos últimos meses em razão do escândalo financeiro envolvendo o Banco Master. Nelson Tanure, apontado como “sócio oculto” de Daniel Vorcaro, banqueiro preso pela Polícia Federal (PF) em março no âmbito da Operação Compliance Zero, foi o responsável por arrematar por R$ 130 milhões a telefonia londrinense em 2020. O aporte foi feito por meio do Fundo Bordeaux, na época administrado por Tanure.

De acordo com apuração exclusiva da rádio CBN, o aporte financeiro, necessário para a transação e futuros investimentos, teria sido feito por Tanure com recursos do Banco Master. Ou seja, o escândalo financeiro, apontado como uma das maiores fraudes bancárias da história do Brasil, também deixou rastros em Londrina. Há ainda a suspeita de que houve apenas uma simulação de transferência: ou seja, os recursos teriam voltado para os cofres do Banco Master, na forma de aplicação de fundos e CDBs, um dia após a formalização da venda. A suposta fraude teria sido constatada pela própria Controladoria-Geral do Município em um relatório técnico. As irregularidades também estariam sendo investigadas pela Anatel, Agência Nacional de Telecomunicações.

Caso seja comprovada, a falta do aporte teria o poder de anular a privatização da telefonia. Os novos desdobramentos podem dar base ao “ressurgimento” da ação popular que pediu pela anulação do negócio ainda em 2020. Na época, a ação questionou a legalidade da venda, citando falta de transparência e a ausência de comprovação da capacidade financeira do Fundo Bordeaux. A ação foi indeferida em primeira instância em 2021 e, desde então, aguarda recurso no Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR). Em entrevista à CBN, Auber Pereira, membro do Movimento Popular Anticorrupção Por Amor a Londrina, que assina a ação com o médico Lauro Brandão, afirmou que a suspeita de fraude apenas confirma os problemas que já haviam sido identificados pelo movimento na época da venda da estatal. Ele lembrou que, no final dos anos 2000, metade das ações da Sercomtel foram vendidas por mais de R$ 1 bilhão à Copel, e questionou o valor fixado durante o processo de privatização para a reestruturação da empresa, o que teria ficado só no papel.

Depois da desestatização, ainda conforme o que foi apurado pela reportagem, a Sercomtel teria sido "esvaziada" pelos novos donos. Os principais ativos da telefonia foram transferidos para outra empresa do mesmo grupo de Tanure, a Ligga Telecom. Entre 2023 e 2024, houve a transferência das licenças e da base de clientes de telefonia móvel e banda larga. Em abril do ano passado, o grupo vendeu as licenças 5G da Sercomtel para o Consórcio Amazônia 5G. O valor do negócio não foi oficialmente divulgado, mas há a estimativa de que ele tenha ficado bem abaixo do de mercado. A discrepância teria cifras bilionárias, de acordo com fontes ouvidas pela reportagem.

Por meio de um trabalho de pesquisa, a reportagem também encontrou dois documentos públicos ligando a Sercomtel, mesmo após a desestatização, ao Banco Master. Um deles, que diz respeito a uma reunião do conselho de administração da empresa realizada em junho de 2023, deliberava sobre o aumento do limite do valor de uma "conta garantia" da telefonia junto ao Banco Master e a "consequente alienação fiduciária" das cotas de um fundo de investimento de titularidade da Sercomtel em favor da instituição financeira. Também encontramos um balanço contábil da Sercomtel, de 31 de março de 2023, em que o Banco Master aparece na aba "contratação de empréstimos e financiamentos". Naquela data, a telefonia mantinha saldo de R$ 130.231,00 "decorrentes de operações contratadas" junto ao Banco Master em junho de 2022. Ou seja, ao que tudo indica, as transações entre as duas partes continuaram mesmo após a finalização do negócio com o suposto "cheque sem fundo". A CBN enviou uma série de questionamentos à assessoria da Sercomtel, mas não houve retorno até fechamento desta reportagem.

Por Guilherme Batista

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